Olhe para o seu pulso. Se houver um relógio ali, saiba que ele tem um pouco de Brasil. Pelo menos é o que conta uma das histórias mais simpáticas da aviação, estrelada por um mineiro baixinho, elegante e teimoso: Alberto Santos Dumont.
Santos Dumont nasceu em 1873, numa fazenda em Minas Gerais, na região onde hoje fica a cidade que leva o nome dele. Filho de um engenheiro que virou fazendeiro de café, cresceu fascinado por máquinas e pelos livros de Júlio Verne. Ainda jovem, mudou-se para Paris, que naquela época era a capital mundial das invenções. Lá, passou a construir balões e dirigíveis e a voar com eles por cima dos telhados da cidade.
Em 1901, venceu um desafio famoso: sair de um ponto da cidade com seu dirigível número 6, contornar a Torre Eiffel e voltar em menos de meia hora. Conseguiu. E fez uma coisa que surpreendeu os parisienses: dividiu o dinheiro do prêmio entre a sua equipe de mecânicos e os pobres da cidade.
Foi nessa época que apareceu o problema do relógio. Para saber se estava dentro do tempo, Santos Dumont precisava conferir as horas em pleno voo. Só que os homens daquele tempo usavam relógio de bolso, preso numa corrente. Para consultá-lo, era preciso soltar os comandos, enfiar a mão no paletó e abrir a tampa. Tudo isso pendurado no céu.
Ele comentou a dificuldade com um amigo, o joalheiro Louis Cartier. E Cartier teve uma ideia: fazer um relógio preso ao pulso por uma pulseira de couro, para ser lido com uma simples olhada. O modelo ficou pronto por volta de 1904 e ganhou o nome do amigo: Santos.
Relógios de pulso já existiam, mas eram vistos como joia de senhoras. Quando os parisienses viram aquele homem famoso, que voava sobre a cidade, usando um no braço, a moda pegou. Aos poucos, o relógio de pulso deixou de ser enfeite e virou objeto do dia a dia.
Em 1906, Santos Dumont entrou de vez para a história. No campo de Bagatelle, em Paris, decolou com o 14-bis, um avião que lembrava uma pipa de caixa, diante de uma multidão e de uma comissão oficial. No Brasil, é lembrado até hoje como o Pai da Aviação. Mais tarde, fez questão de divulgar os desenhos de outro avião seu, o pequeno Demoiselle, para que qualquer pessoa pudesse construir o seu.
De volta ao Brasil, construiu em Petrópolis, na serra do Rio de Janeiro, uma casa pequena e cheia de invenções, e a chamou de A Encantada. A escada da entrada é a curiosidade mais famosa: os degraus são cortados pela metade, alternando os lados, e só dá para começar a subir com o pé direito. Quem visita a casa, que hoje é museu, sempre faz o teste.
Então, da próxima vez que olhar as horas no pulso, lembre-se do mineiro que voava sobre Paris e não queria soltar as mãos dos comandos.