A receita do bolo de fubá da minha mãe nunca esteve num caderno. Estava no verso de uma folhinha de 1974, daquelas de parede, com a foto de uma cachoeira. Mamãe arrancou o mês de março, virou a folha e escreveu tudo a lápis, com aquela letra inclinada de quem aprendeu caligrafia na escola. Até hoje a folha mora dentro de um envelope, na gaveta dos talheres.
Quando eu era menina, o bolo aparecia nas tardes de chuva. Era o céu escurecer e a Nair, minha mãe, ia buscar o fubá. A casa inteira ficava com cheiro de erva-doce. Esse era o segredo dela, que ela contava para todo mundo e ninguém acreditava que fosse só isso: uma colher de erva-doce na massa. “Bolo de fubá sem erva-doce é bolo que esqueceu o que veio fazer”, dizia.
Medida, ela não usava. A xícara era uma caneca de ágata azul, lascada na borda, que segundo ela tinha o tamanho certinho de uma xícara de chá. Herdei a caneca e a mania. Já tentei usar xícara medidora, dessas de plástico que vêm em jogo. O bolo saiu bom. Mas não era o mesmo.
No mês passado, minha neta Bia me ligou de Curitiba, onde foi estudar. Disse que estava com saudade de casa e que, na república, ninguém sabia cozinhar nada além de macarrão instantâneo. Queria fazer o bolo. Eu disse que ensinava, mas só se fosse junto, cada uma na sua cozinha. Ela riu e apoiou o celular na lata de açúcar.
Fomos passo a passo. Primeiro, untar a forma com manteiga e polvilhar fubá, e não farinha, porque assim a casquinha fica dourada. Depois, bater os ovos com o açúcar até clarear. “Até clarear quanto, vó?” Até ficar da cor de manteiga. Ela virou a tela para me mostrar. Ainda faltava um pouco.
Depois vieram o leite e o óleo, o fubá e a farinha peneirados. A erva-doce, eu fiz questão de ver entrar. O fermento vai por último, misturado com delicadeza, “como quem acorda uma criança”, que era outra frase da minha mãe. Forno a 180 graus, uns quarenta minutos, e nada de abrir a porta antes da metade do tempo.
Enquanto o bolo assava, ficamos conversando, eu de um lado, ela do outro, cada uma de olho no próprio forno. Ela me contou da faculdade, das provas, de um rapaz que ainda não sabe se vale a pena. Eu contei da bisavó que ela não conheceu, e de como a Nair cantava enquanto mexia a massa. Foi a conversa mais comprida que tivemos desde que ela se mudou.
Quarenta minutos depois, dois palitos saíram limpos, a centenas de quilômetros um do outro. A Bia mandou a foto do bolo dela: um pouco torto, a casquinha perfeita. Na mesma noite, chegou outra mensagem. Ela tinha escrito a receita à mão, num papel, e colado na porta da geladeira da república. “Para não depender do celular”, explicou.
Fiquei olhando para a folhinha de 1974 por um bom tempo. Receita de família é isso. Não é a lista de ingredientes: é a voz de quem ensina, que continua falando dentro da cozinha muito depois de a gente aprender. Mas, para quem quiser, a lista vai logo abaixo.