Minhas mãos agora são mapas: têm rios, estradas, sinais. Cada linha é uma viagem que eu fiz e não faço mais.
Mas não confundam com despedida o jeito calmo de eu andar. Não é o fim da minha vida, é outro jeito de chegar.
No espelho, um senhor me encara com os olhos do menino que eu fui. Mudou a moldura, mudou a cara, mas por dentro o mesmo rio flui.
Esqueço às vezes a chave, o nome de um ator, um recado. Mas lembro o cheiro da chuva no quintal do meu passado.
De manhã, passo o café no coador de pano, devagar. Quem tem pressa nem percebe o cheiro subir e ficar.
Caminho cedo pela praça, cumprimento o jornaleiro. A cidade, quando passa, me chama pelo nome inteiro.
No quintal, a mangueira antiga, plantada antes de eu nascer, ainda dá fruta, ainda abriga quem chega cansado de correr.
Às terças, aprendo tango com uma moça de vinte anos. Eu piso no pé dela, ela ri, e a gente refaz os planos.
Em troca, eu ensino à moça o pão que minha mãe fazia: sovar com calma, sem força, e deixar crescer o dia.
Me perguntam, meio sem jeito, se eu ainda tenho o que aprender. Ainda. Palavra de respeito, onde cabe o que vai acontecer.