Tem gente que acorda com despertador. Eu acordo com o cheiro do pão. Às seis e quarenta, quando a primeira fornada sai na padaria da esquina, o perfume atravessa a rua, sobe dois andares e entra pela fresta da minha janela sem pedir licença. Às sete, estou lá.
A Padaria Estrela não tem nada de especial, e é justamente por isso que é especial. O balcão de fórmica já perdeu a cor nas pontas, o relógio de parede adianta cinco minutos desde que me lembro e o Seu Valdir, dono, padeiro e caixa ao mesmo tempo, ainda anota as contas num caderno de capa vermelha, com um lápis preso atrás da orelha.
Meu pedido é sempre o mesmo: duas bisnagas e um pingado. Faz tanto tempo que peço isso que o Seu Valdir já nem pergunta. Quando apareço na porta, ele separa o pão, a moça da chapa começa a esquentar o leite e eu só preciso dizer bom-dia. Às vezes, nem isso: ele diz primeiro.
Na porta, deitado no capacho como quem guarda a entrada, fica o Biscoito. É um vira-lata caramelo, de orelha em pé e rabo que não para, que não tem dono e tem dono demais. Cada freguês que sai deixa para ele um pedaço de casca de pão. O Biscoito agradece a todos do mesmo jeito, com uma lambida rápida na mão, e volta ao posto.
No canto do balcão, a Dona Zuleica faz as palavras cruzadas do jornal com caneta, porque, segundo ela, lápis é para quem tem medo de errar. Quando empaca numa palavra, lê a pista em voz alta e a padaria inteira vira programa de auditório. Ontem, a pista era “rio que banha a capital do Pará”, com cinco letras. Quem acertou foi o rapaz da entrega de gás: Guamá. Ganhou aplauso e um pão de queijo por conta da casa.
Ali, a gente sabe das coisas antes do jornal. Quem casou, quem mudou, quem teve neto, quem anda sumido. E quem anda sumido é logo procurado. No inverno passado, peguei uma gripe e fiquei três dias sem descer. No segundo dia, tocou o interfone: era o neto do Seu Valdir, com um saco de pão quentinho, um pote da canja que a mulher dele tinha feito e um bilhete escrito numa folha do caderno vermelho: “Melhoras. As bisnagas estão pagas.”
Fiquei pensando nisso por muito tempo. A gente acha que desce para buscar pão. Mas, no fundo, desce para buscar outra coisa: alguém que repare se você não veio, que saiba como você gosta do café, que guarde a última bisnaga quando você se atrasa. A gente desce para ser esperado.
Hoje cedo, cheguei às sete em ponto, ou seja, às sete e cinco no relógio da parede. O Biscoito levantou a orelha. A Dona Zuleica brigava com uma palavra de nove letras. E o Seu Valdir, antes que eu abrisse a boca, já empurrava o saquinho pelo balcão.
— Bom dia, professor. Hoje o pão está caprichado.
Estava mesmo. Como em todos os outros dias.