Durante muito tempo, acreditou-se que o cérebro adulto era como uma casa pronta: dava para morar, mas não para reformar. Hoje se sabe que não é bem assim. O cérebro continua capaz de criar novas conexões entre os neurônios em qualquer idade. Os cientistas chamam isso de plasticidade. Dito de um jeito simples: a cabeça continua aprendendo enquanto a gente continua ensinando coisas a ela.
E o que ela mais gosta de aprender é novidade. Fazer palavras cruzadas é ótimo, mas quem faz palavras cruzadas há trinta anos já está em terreno conhecido. O cérebro trabalha mais quando encara algo diferente: um instrumento, um idioma, uma receita nova, um caminho diferente até a padaria. Não precisa ser difícil. Precisa ser novo.
O corpo também ajuda a cabeça. Caminhar com regularidade faz o sangue circular melhor, inclusive o que chega ao cérebro. Pesquisas com pessoas mais velhas mostraram que caminhadas feitas alguns dias por semana estão ligadas a uma região da memória mais saudável, o hipocampo. Ou seja: a volta no quarteirão também é exercício para a mente.
O sono é outro aliado, e dos grandes. Enquanto você dorme, o cérebro não desliga. Ele revê o que aconteceu durante o dia, separa o que vale guardar e arquiva as lembranças no lugar certo. Uma boa noite de sono é, de certa forma, uma arrumação de gavetas.
Conversar também conta. Uma boa prosa pede atenção, nomes, palavras na ponta da língua e o raciocínio do outro para acompanhar. É um exercício completo, e ainda tem a vantagem de ser agradável. Por isso, vale cuidar da audição: se você anda pedindo muito para as pessoas repetirem o que disseram, faça um exame. Ouvir bem ajuda a participar da conversa, e participar da conversa ajuda a memória.
E os esquecimentos do dia a dia? Esquecer onde deixou os óculos ou o nome de um ator acontece em qualquer idade, inclusive aos vinte anos. Quase sempre, o problema não é a memória, é a atenção: a gente guarda a chave pensando em outra coisa, e o cérebro nem chega a registrar onde ela ficou. Algumas estratégias simples ajudam.
Diga em voz alta. Ao deixar a chave, fale: “deixei a chave na fruteira”. Ouvir a própria voz ajuda o cérebro a registrar. Tenha lugares fixos: os óculos sempre no mesmo pires, os documentos sempre na mesma gaveta. Faça associações: conheceu uma Margarida? Imagine a pessoa segurando a flor. A imagem puxa o nome.
E conte o que leu. Explicar para alguém o que você acabou de ler é uma das melhores formas de fixar uma lembrança. As perguntas no fim deste texto existem por isso.
Nada disso é fórmula mágica, e ninguém precisa fazer tudo de uma vez. Escolha uma novidade para esta semana, dê uma volta no quarteirão e ligue para alguém de quem você sente falta. A memória agradece.
Este texto é uma orientação geral. Converse com seu médico antes de mudar sua rotina e conte a ele se notar esquecimentos que atrapalham o dia a dia, como se perder num caminho conhecido.